Estávamos
por alturas de fevereiro de 1961 quando se passam estes acontecimentos. Eu à
semelhança da maior parte dos miúdos da minha idade, não tinha direito nem
tempo para ser criança e depois de completar os estudos obrigatórios, 4ª
classe, começávamos a contribuir para o orçamento familiar.
Começávamos
por guardar porcos, ovelhas, vacas, etc. Como eu já tinha 13 anos de idade,
subi na classe de competências e fui guardar vacas. O meu moral era o Sr.
Domingos Remela, era assim que o tratavam, eu chamava-lhe primo Domingos, não
sei qual a relação familiar que existia, ainda hoje não sei.
O
meu primo Domingos tinha uma burra que era uma estampa e fundamentalmente as
suas pernas como ele dizia. Quando se deslocava para os locais onde andava a
guardar os gados, as herdades do Alexandre Pais; Coutada, Monte Frade, Coreia,
Casa de Bragança etc.
Nós
estávamos instalados na encosta em frente ao monte da coreia onde tínhamos a
malhada e a cerca para as vacas. Todas as semanas no domingo vínhamos à vila
para regressar na segunda-feira de manhã com o farnel para a semana inteira, as
vacas ficavam fechadas na cerca.
Nesta
altura do ano chovia muito e por vezes a ribeira de Seda transbordava com muita
facilidade as margens. Era frequente, as passadeiras ficarem debaixo de água e
os trabalhadores que desenvolviam a sua atividade, nos montes da Lapa ou no
Vale de Barqueiros assim como nós que trabalhávamos na Coreia, ter que ir dar a
volta à ponte romana que se encontra aproximadamente a 3,5 Km a montante.
As
passadeiras eram blocos de betão encimados geralmente por pedras, que formavam
um quadrado de 25 cm de lado teriam uma altura de 1 a 1,5 m, separados por uma
distância entre si de 80 cm a 1 metro. Em condições normais já arrepiava saltar
de bloco em bloco, agora imagina com a água a cobrir alguns destes blocos e a
velocidade de deslocação das águas.
Eu,
um rapaz já a olhar para as raparigas do meu tempo e querer ser considerado um
homem saltando de pedra em pedra lá me safei. O bom do meu camarada fazendo uso
da sua longa experiência estava a água no cruzamento da azinhaga e a estrada
que vem da vinha. O bom do homem porque também já vinha atrasado não lhe
agradava a ideia ter que ir dar a volta à ponte, olhou para a burra possante,
era alta até a albarda tinha aí 1 metro, decidiu-se a arriscar.
Entrou
na água, a burra não lhe agradou muito mas como o cavaleiro é que tinha o
domínio da situação o animal não teve outro remédio senão avançar. Quando
chegou em frente ao pontão de cimento que se encontrava já no centro do leito
da ribeira a burra tinha água já a chegar a albarda, o cavaleiro teve de
encolher as pernas para não molhar os pés.
A
burra carregada com o nosso farnel e o cavaleiro conseguiu andar mais uns 3 a 4
m ao fim quais a burra não conseguiu suportar a força da corrente. O corajoso
cavaleiro e a sua montada são atirados contra as primeiras passadeiras a seguir
ao pontão de cimento, a força das águas, arremeçou cavalo e cavaleiro através
dos blocos pela ribeira abaixo. Há que realçar o equilíbrio do valente
cavaleiro que não entrou em pânico e conseguiu guiar a burra até á outra margem
já da parte debaixo das passadeiras nas terras do vale de Barqueiros. Já no outro
lado, cavalo e cavaleiro saíram vitoriosos desta luta desequilibrada mas o
trabalho de equipa conduziu a bom porto, é bom lembrar também que algumas
embalagens se perderam e um grande banho e um valente susto ficaram para a
história a contar e juntar a outras já nossas conhecidas e contadas na primeira
pessoa pelos intervenientes.
(António
Clara)
NOTA
DO EDITOR: Tudo se relaciona na vida. Domingos Remela era meu avô e eu bebi
muitas canecas de leite desta burra.
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