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“ O AVÔ CHICO III “ -----
Quem viveu esses tempos, que eu muito
dele sei de ouvir contar, lembra o culto da humildade, da miséria e da caridade
repugnante, que era o pão nosso de cada dia, de um país subjugado ao ditador
Salazar, o asqueroso Cardeal Cerejeira e os latifundiários alentejanos, que mantinham
o povo inculto, para ser humilde e maleável.
Uma senhora, muito religiosa, (e
nojenta), fazia alarde de caridade. Todos os sábados, (quatro vezes por mês),
distribuía esmola pelas velhotas mais pobres, (essa santa hipócrita), mas não a
dava em mão, provavelmente com medo de se sujar, atirava-a da janela. Mas não
dava a todas, era só para quem pagasse a congra, que ela mesmo num sábado do
mês recolhia. Havia quem passasse horas à espera que a senhora atirasse os 10
tostões, para depois na cobrança da congra lho devolverem com juros.
Nos anos cinquenta, talvez ao abrigo do
Plano Marchal, (Portugal não esteve na guerra, mas estava nas últimas),
chegavam da América roupas para os pobres e logicamente, era na igreja do
maldito padre Aníbal que era distribuída.
O tio Chico Malarranha sempre sabia
quando havia distribuição de roupa e saltava da cama bem cedo para se ir sentar
na porta da igreja, quer fizesse sol ou chuva. Muitas vezes, nem havia
distribuição, eram os rapazes da terra, (o Barbica, o Caldeirinha, o Manolo, o
Manel David), com quem ele conversava, que o enganavam. Ele esperava horas e acabava
sempre, quando a fome apertava, por voltar para casa.
Mas quer houvesse distribuição ou não, o
tio Chico Malarranha voltava sempre para casa, triste e confuso. O padre, tinha
uma lista onde só constava o nome dos pobres que eram casados pela Santa Madre
Igreja do cabrão do Cerejeira. E o meu avô, quando ainda era um homem
consciente, como republicano que era, só se casou pelo civil. Nunca entendeu
porque o padre Aníbal, insistia que ele não era casado, mas amancebado.
Mas estava tudo certo, os americanos,
como grandes católicos, só ajudavam o rebanho que aceitava o jugo de ditadores,
padres malandros e senhorecas de merda.
Obrigada, por estas crónicas! fazem-me voltar à minha infância! os tempos tal como os descreves, eram realmente uns tristes tempos, mas sempre ficam recordações boas da nossa infância, lembro-me perfeitamente do teu avô. Mais uma vez obrigada pela partilha. beijo
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