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“ OS DIAS II “ -----
Estas pessoas viviam encurraladas na sua
própria consciência, principalmente os que não tinham possibilidades de emigrar
deste país de cemitério, onde reinava uma paz podre.
Eu não tinha consciência, evidentemente,
mas acho que pelos meus doze anos, já me questionava. Porque havia sempre pão
em minha casa e noutras não? Porque havia miúdos descalços todo o ano? Lembro
do olhar de alguns amigos, se entravam em minha casa em hora de refeição, só
mudava, quando eram convidados a sentar à mesa.
Lembro-me das Esquinas apinhadas de
homens, parecia uma Praça de Jorna, homens que ficavam parados, quando não faziam
falta. Os mais acanhados, só trabalhavam nas campanhas, azeitona, monda e
ceifa, de resto, ficavam sentados às Esquinas, a ver o tempo passar e a tentar
esquecer a fome.
Nunca me lembro de o meu pai estar sem
trabalho. Tinha trabalho ao ano, que era certo mas sem horário. Talvez por
isso, em minha casa nunca faltou pão, leite, ovos, carne, produtos da horta e
eu e o meu irmão, sempre nos vestimos por inteiro.
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