sexta-feira, dezembro 7

20 – Tu e um pastel «Luar dos Dias»



Gosto de escrita assim, ao sabor do que aparece, é o tipo de escrita em que me sinto mais á vontade. Agosto/2011.

Tu e um Pastel

Pois é…, como vou descalçar esta bota? Eu aceito reptos do “arco-da-velha”, depois lixo-me, fico feito barata tonta sem saber como reagir. Tal nã éi a moenga?
Ontem em amena cavaqueira (cruzes) com uma amiga do peito, (dos dois), a conversa resvalou para o chá, já nem sei porque carga de água.
Lembrei os chás que minha avó fazia. Nos meses quentes de verão, frente á porta, do outro lado da rua, um tabuleiro de madeira de levar pão ao forno, em cima dum mocho, cheio de folhas de limoeiro a secar à sombra. Depois de bem secas, eram guardadas em bolsas de pano e davam para fazer chá o ano inteiro. Eu nunca fui miúdo de muito chá, embora não lhe sinta hoje a falta, mas juro que nunca mais encontrei o gosto e o aroma do chá da minha avó.
Mas não era sobre chás a crónica de hoje, esta minha tendência por atalhos dá nisto. A minha amiga, aquela muito especial, prometeu trazer-me um chá e um pastel de nata. Como não sou muito de chás, já o disse, e a massa folhada não é o meu forte, respondi, num arroubo de cavalheirismo, “prefiro que venhas tu”.
Pronto! Foi aí que me tramei. Ela propôs-me escrever uma “crónica” com o tema, “tu e um pastel”. Definitivamente uma ideia que nem o capeta teria, mas ocorreu aquela diabinha. Já diz o ditado, o que esquece ao Diabo, lembra às mulheres, (será assim?).
Posso afirmar que sobre o “tu”, ela, o que tenho para dizer dava “pano para mangas”, se não fosse época de mangas curtas. Mas não o vou fazer por duas razões atendíveis:
            1ª – O muito e bom ia deixá-la extremamente vaidosa, coisa que eu não quero, e podia mandar a nossa “irmandade” para o béléleu. Ui!
            2ª – Sei que algo que é importante no foro restrito, sendo público perde impacto.
Sobre o “pastel”, só o que me ocorre dizer; é que como português genuíno, prefiro o de bacalhau.

E Desisto. O “tu e um pastel” não tem ponta por onde se pegue, mesmo que eu estivesse com a minha inventiva num nível aceitável.
Só me resta dar o braço a torcer e pedir desculpas.

- j a godinho -

quinta-feira, dezembro 6

Se eu fosse desilusão «Luar dos Dias»

Um soneto meu, dito por Júlio Couto

18 – Mágoa «Luar dos Dias»



Texto com a minha imagem de marca. Só eu, com a minha circunstância, poderia escrever assim. Setembro/2011.

Mágoa

Era uma vez um homem a quem a vida, um dia, o fechou no seu labirinto interior.
Quanto mais aprendia do mundo e de si, mais longe ficava da vida e dos outros.
Um dia percebeu que à falta de falar com os que o rodeavam, não conhecia mais o som da sua voz.
O tempo passou.
À custa de muita ajuda e muito querer, conseguiu rasgar o véu que o isolava.
Agora anda por aí a soltar sonoras gargalhadas, numa vida um pouco insana para ser suportável.
Não tem medo de ofensas e acusações, responde com sobranceria ou desdém.
As contrariedades fortalecem-no, reforçam-lhe o ânimo, mantêm-no agarrado á vida.
Só tem mesmo medo do “descaso”.
Uma frase tão simples como; “não quero falar contigo”, trazem-lhe de volta os fantasmas que tenta a todo o custo esquecer.
Porque prefere morrer a voltar atrás.

- j a godinho -

quarta-feira, dezembro 5

Arrumador de Palavras

Deixo a capa do meu próximo livro.
A sair antes da Páscoa.

16 – Injustiças «Luar dos Dias»



Um pequeno texto humorístico, talvez o mais antigo deste livro. De 2009.

Injustiças

Estou mais do que indignado com as injustiças em que o nosso país é tão pródigo.
É vergonhoso o que estão a fazer ao Senhor Doutor Major Valentim Batateiro. Eu bem o vi na televisão dizer que os jornalistas não sabem porque ele está a ser julgado e tem razão. Uma pessoa não pode ser perseguida, só porque é mal-educado; berra com toda a gente, não deixa falar ninguém e é fanfarrão.
É verdade que ele é assim, mas foi a educação que lhe deram na Academia Militar, não é culpa dele.
Primeiro foi o caso das batatas, que eu não acredito. Mesmo que fosse verdade que o homem surripiou umas toneladas de batatas do rancho da tropa, só podia ter sido com boa intenção. Todos sabemos que a batata engorda. E soldados gordos, são alvos mais fáceis para o inimigo. Logo, roubando algumas batatas dos pratos, estava a defender a vida dos seus homens. Deveria ser louvado.
Depois, foi o escândalo dos eletrodomésticos, que eu nunca percebi lá muito bem. Não é verdade que se costuma recriminar os políticos por pedir votos e nunca dar nada em troca? Porquê agora crucificar um por trocar varinhas mágicas, micro-ondas, ou leitores de CD por votos? Em que é que ficamos? É-se preso por ter cão e por não ter? Tenhamos juízo… Vivesse eu em Gondomar, não estava a minha casa tão desprovida desses utensílios.
Agora chegou o caso Apito Dourado. Outra coisa por demais incompreensível, a meu ver… Qual é o mal de dar prendas de ouro aos árbitros? Já não se pode presentear os amigos? Se o homem não desse nada a ninguém, era avarento, unhas-de-fome, o diabo a quatro… Dá, é logo acusado de corrupto. E que mal tem os árbitros retribuírem com favores no campo? Isso só mostra que são pessoas bem formadas, sabem pagar os favores. Sempre se disse “uma mão lava a outra”.
Vamos parar com essas parvoeiras e deixar o senhor em paz. Qualquer dia um honrado cidadão pode ser preso por ajudar uma velhinha a atravessar a rua.

- j a godinho -

segunda-feira, dezembro 3

15 – Porta Aberta «Luar dos Dias»



Um texto datada, que revela o chegar e partir de amizades. Fevereiro/2011.

Porta Aberta

Achas que já posso escrever para ti, amiga?

Eu penso que é cedo ainda, muito cedo.
Devo dar tempo a que assente o pó suspenso no ar,
e deixar esfriar o momento do "conhecermo-nos”.

Chegaste com um “gosto” largo na ponta dos dedos,
e espalhaste-o pelo meu mundo, prodigamente.
Foi muito boa, essa chegada prenhe de elogios.

Como é bom um homem sentir o ego estimulado!
Principalmente depois de tanto se viver em falta,
Num árido deserto de elogios a vida inteira.      

Agora eu sou o sapo depois do ansiado beijo.
O meu firmamento encheu-se com mais uma estrela.
E eu sei que Amália não me fala só do fado,
também pode ser o nome de uma grande amizade.

- j a godinho -
 

sábado, dezembro 1

14 - Encontros «Luar dos Dias»



Mais um encontro, sempre agradável, com o meu amigo Carrapato, datado de Julho/2011.

Encontros

Chegou com o ar amigo e respeitoso de sempre, é um homem que inspira confiança, que se vê à distância que traz consigo uma imensa bagagem de saber empírico. Fala devagar, como um amigo e diz sempre alguma coisa inesperada, daquelas verdades muito óbvias, depois de ditas.
Desta vez trazia nos olhos uma luz nova, como quem olha as coisas pela primeira vez, e um sorriso travesso nos lábios. Não lhe perguntei o motivo, porque a nossa relação não é feita de perguntas. De moto próprio nos damos as respostas quando estão maduras, elas, as respostas e nós próprios.
 Deixou-me este pequeno texto que eu identifico como prosa poética e a que atribui o título de:

“Sentires Rurais”

Sou um pastor sem rebanho
A que há muito perdi o rasto
Sem braços para o cajado
Só posso guardar os sonhos
Que há meses trazes grudados
Nas pontas dos teus cabelos

 Despediu-se com o tão dele; Santas Tardes e o agora eterno sorriso enigmático…
E eu fiquei a pensar com os meus botões:
- Aqui há gato…

- j a godinho -