sexta-feira, outubro 7

Emocionar-se


Gosto de costurar colchas de retalhos,
ao sabor do que sinto no momento,
sem segundas intenções, sem inventar,
mas fazer corar, é bom…

Gosto de emocionar, causar constrangimento,
daquele bom que acelera o coração,
que faz pensar, almas mais sofridas,
corram, ponham-se a salvo…

Gosto de pessoas que me desafiam, batem o pé,
que ousam levar-me mais longe que o trivial,
me põem em causa, próximo dos limites,
mesmo que olhem onde pisam…

Porque eu sou de tudo ou nada,
não convivo bem com o assim-assim,
não cuido do futuro, porque é hoje
um hoje, que me foge por entre os dedos

quinta-feira, outubro 6

Na Primavera

Na Primavera, ouvindo os passarinhos
Pousados nesta árvore tão bela…
Deitada nesta terra húmida como janela
Vejo as nuvens dançando á espreita dos ninhos.

Não é uma árvore imaginada, existe
Aos olhos de um e verdadeira
E aos olhos de outro, que resiste
Mas, solene, se na presta madeira.

As folhas, alternadas nas nervuras
Caem, balançam, como gangorras
Servindo de sonhos e ternuras,
Por instantes, antes que dela, corras.

Entra-se na toca que lhe abrigas,
Fundo se vai, bem na rasante
Ora acalenta toques doces, ora brigas
Nos traumas e melindres , firme ou hesitante.

O calor dela infunde, dá coragem
De entregar-se á imaginação,
Sente-se o frescor da aragem,
Envolvendo a pele ávida de emoção.

Deitada, folhas, pássaros rodopiando
No frenesi dos sons distantes,
As mãos sôfregas, cores pintando
Como fogo fátuo dos amantes.

(Cloé Madruga)

quarta-feira, outubro 5

Valsa de Outono

No Outono, como está sua estação?
Agora temos uma árvore, aonde colocar nossos sonhos.

Está quente, muito para lá do que é normal.
Sim, não é uma árvore qualquer, é uma árvore imaginada.
Produz sonhos, insónias, uma vontade enorme de partilha, de lhe beber a sombra.
Tem muitas folhas perenes, verdes, de nervuras largas, como longos dedos ávidos de pele.
Produz suspiros mil, vontades de ir em frente, vencer o medo, sem olhar onde se pisa.
Quando não se vence, sai-se, sem traumas nem melindre, só capacidade de entender e esperar.
Também tem promessas só alcançáveis na cabeça dos que se sentam sob a sua copa, com o tronco como apoio.
Dotados de uma grande vontade de uns braços quentes.

Amiga/Irmã


Conhecemo-nos durante muitos anos, um conhecer de longe.
Depois, passámos a um conhecimento de nos vermos mais.
Nos últimos anos a vida aproximou-nos num dia-a-dia de conversas.
Foram muitas noites em que, enquanto o sono não chegava, conversávamos…

Revelou-se uma mulher de armas, forte e inteligente, como eu gosto
Com uma sede enorme de aprender e capacidade de entender tudo, facilmente
O meu computador serviu-lhe de companhia em muitas noites de trabalho
Foi nele que ganhou entusiasmo e se preparou para a chegada da sua “joaninha”, sem que eu tivesse medo de algum segredo que ele contivesse fosse divulgado ou mesmo sabido por ela.
É o tipo de pessoa a quem confiava toda a minha vida, sem medos.

Neste momento está doente e infeliz da vida, procura equilíbrio nos filhos.
Este tipo de mulheres grandes, quando encontram um companheiro á altura, são felizes para sempre, ela teve azar.
Não encontrou, (não percebo como um homem pode jogar fora o que outros davam tudo para ter)
Quem sabe o que o futuro lhe reserva.
Que bom seria que ela tivesse alguém á sua altura, um companheiro, um amigo, um homem inteligente, um homem a sério.

Se eu tivesse uma irmã, gostava que fosse como ela, por isso nos escolhemos.
O que quer que aconteça nas nossas vidas, nunca nos vamos perder, mana.

terça-feira, outubro 4

Conhecer-se


O conhecer-se…
é como uma colcha de retalhos,
onde as vidas que já tiveram tantos atalhos,
vão pouco a pouco a tecer.

Ora alegrias, sorrisos a aquecer,
ora tristezas que já se foram,
reavivadas por canções fortes, intensas...
que coram...

É viver, entregar-se, ou apenas…
ligeiras corram,
das famosas e conhecidas ilusões,
como labirintos que  soltas nos amarram.

Ser ou não ser, esta é a questão…

(Cloé Madruga)

segunda-feira, outubro 3

Momentos


Mais uma prova de tudo o que já sei
Que os momentos longe são difíceis
E tão maravilhosos os que já te dei
Perco-me a pensar
Nas coisas belas que sinto
Como te poderei conquistar
Mas que especial ser és tu
Fizeste-me o que mais ninguém fez
Renascer o que eu pensava ter morto de vez
Não em actos, mas em sentimentos
Encontro-te facilmente nos meus pensamentos
E quando tudo se parece tornar difícil
Sem motivo aparente
Mais certezas aparecem  sem lamentos
Só que o medo continua presente
O medo de aumentar
De tornar tudo o que nunca quis encontrar
Dependente, de alguém que não me é indiferente
Enquanto o tempo não passa
E não alcanço o que agora acredito
Fico perdido no meu espaço com as coisas
Que tenho dito
Porque a verdade dos sentimentos
Procura-se na verdade de um olhar
Na simplicidade dos momentos
Que transformam a forma de gostar.

“Félix Pereira Júnior”

domingo, outubro 2

Noite Escura


Acabei de me deitar
Noite bem escura de breu
Por tecto todo este céu
Tanta estrela a cintilar

Deslumbramento sem par
Que um homem, mesmo ateu
Pensa consigo, “deus meu”…
Sinto ganas de rezar.

Um carro passou na estrada
A cadela fez escarcéu
- Oh Catita, está calada!

Ai, que cansaço me deu
Fecho os olhos e não tarda
Estou nos braços de Morfeu

(Joaquim Carrapato)

sábado, outubro 1

Olhar Para Trás


Foi um tempo muito complicado, como um renascimento, ou a saída de um poço.
Uma amizade feita de muito tempo e muitas conversas.
Apareceu inesperadamente na minha vida e ficou, ou foi ficando.
Eu estava a sair de um longo período de isolamento e abriu-se uma janela.
Falávamos de tudo e foi assim que eu aprendi a articular algumas palavras mais difíceis.
Consegui falar de mim, não como agora, porque ainda estava a gatinhar.
Mas provavelmente foi com ela que eu dei os primeiros passos para o que sou.
Estávamos muitas horas do dia juntos, era a minha única ligação ao “outro”.
Nos meus tempos de convalescença, esteve sempre presente, matou-me a solidão.
Nunca vou esquecer os passeios que para mim eram longos, só para mim…
Quando o meu mundo era pouco maior que a duração de uma bateria.
Aquela tarde no Vale de Cardeiros, foi inesquecível (para mim), como foi hilariante o incidente de Pêro Calvo.
O meu tempo e viver complicado, descomplicou.
Sabem como é o raiar do sol numa tarde de muita chuva? Foi assim.

Um dia, não estava mais lá, tinha partido em busca de vida.
Só algum tempo depois percebi porquê.
E eu tive a certeza que nunca fui, nem poderia ser, nada para ninguém.

Tratei de lamber as feridas e refazer-me.
Tentando manter-me longe do meu poço.

Hoje, rio-me da minha certeza antiga