Deitado
e imóvel, nesta gélida madrugada de Dezembro, fecho os olhos e procuro-me. Quem
me olhe, jurará que estou dormindo, mas nunca estive tão desperto, tão
completamente consciente de mim. Perscruto todos os meus recantos, com todos os
sentidos alerta, olho-me no espelho interior e busco o que fui, o que sou e a
projeção de um futuro, que ainda me amedronta.
Não
sei de onde sou, muito menos para onde vou, só sei, pelo meu saber pressentido,
que não sou daqui, este não é o meu lugar, mas algures longe, em busca de
viver.
Não
me vou entregar à cómoda realidade de sobreviver. De preferência, morrerei a
procurar-me, sem a mínima certeza de me encontrar fora de mim, como o logro no
âmago do meu interior.
Não
sei se alguém entenderá estas palavras, hoje resolvi não escrever para o vulgo,
para a imensa mole de nados mortos que me rodeiam e que nada me dizem, nem
nunca saberão de mim, coisa nenhuma. Esta sociedade está cheia de gente de
estar, os nados mortos, que nunca chegarão a ser, nem a entender-se. Porque a
gente só nasce, quando sente a dor do parto, só nesse momento, se deixa a
condição de estar, para ser. E muito poucos que conheço o conseguiram.
Lembro-me
da sensação de ter nascido, da dor que senti naquela tarde que recordo, sem
lograr situar no tempo. Recordo ter tido a consciência do nado morto que tinha
deixado de ser naquele instante, para me tornar o homem nascido, que hoje se
escreve, para os poucos que me entendem.
Nesse
momento, venci o medo da morte.
Nesse
momento, percebi que só se deve temer o que não se não estende.
Nesse
momento, iniciei a longa caminhada para controlar os medos, que está ainda só
no começo.
Nesse
momento iniciei a minha viagem consciente, que sei exatamente quando vai
terminar, no instante da minha morte.
muito bom e lúcido este texto. Eu não falaria de nascimento...Diria antes renascimento. Implica a morte de algo durante as dores do parto... Alguns numa vida só, conseguem morrer e renascer várias vezes. Atrevo-me a chamar-lhe evolução.
ResponderEliminarNas gélidas madrugadas de Dezembro, são pouco os que buscam conforto no calor das palavras sentidas.
ResponderEliminar